quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O erro de Nietzsche


       Um dos problemas capitais enfrentados pela filosofia hodierna é o de definir sua própria fase de existência. Afinal, o que significam as divisões em filosofia moderna e contemporânea, tal como se nos apresentam-nas no quadro didático do magistério? Seria a filosofia contemporânea marcada pela pós-metafísica, ou pós-modernidade; mas neste caso, o que exatamente resta de filosófico na filosofia, se ela assumidamente renuncia ao esforço de remontar às causas últimas e sintetizar o real numa fórmula compreensível?
         É tão precária a divisão da filosofia em etapas que os especialistas discutem ainda seriamente onde começa e termina a Era Moderna. Certamente a Modernidade cultural se inicia no século XVII com Bruno, Descartes, Bacon, Galileu, Copérnico (a recepção dele, pois a pessoa viveu antes) e Kepler, ou melhor dizendo, com a revolução científica, que acompanhou também o processo estético-cultural de formação das línguas nacionais. Bem mais difícil é saber se a filosofia acompanhou imediatamente esta revolução, ou se, como pensam alguns, permaneceu escolástica e subordinada à teologia até Hume e Kant, mais de um século depois. E isto é essencial para definir de quem a filosofia contemporânea quer se diferenciar.
         Na visão mais ortodoxa a modernidade filosófica se enquadra entre Descartes e Hegel, aproximadamente, período marcado pela metafísica da subjetividade. Cum grano salis, os pensadores deste período compartilham o ponto de vista subjetivo da fundamentação do saber e do ser, terminando por identificar a ambos. A partir do positivismo, do marxismo, da psicanálise e, com mais propriedade filosófica e profundidade, de Nietzsche, inicia-se o processo de crítica antropológica da metafísica moderna, substituindo-se as certezas metafísicas por explicações sociais, econômicas, linguísticas, psicológicas, etc. Se com Comte e Marx a filosofia foi “substituída” pela “ciência” social, ocorrendo o mesmo em relação a Freud, com Nietzsche vemos a implosão da filosofia a partir de sua própria autoanálise, ainda que com forte comprometimento do reducionismo antropológico. Nietzsche decretou o erro de Descartes como sendo a absolutização do sujeito em uma forma pura, imaterial, e extramundana, e a metafísica que se lhe seguiu nada mais seria do que uma insistência nesta elevação esquizofrênica da subjetividade ao estado divino, puro.
O jovem Nietzsche

         Tal diagnóstico se cercou não apenas de toda a vasta crítica antropológica disponível, como da análise do próprio Nietzsche sobre os processos de abafamento cultural empreendidos pela tradição cristã. Com sua invulgar erudição, Nietzsche discerniu perfeitamente os movimentos da arte, da religião e da ciência na Antiguidade clássica e em sua mutação no ideal ascético estóico-cristão, vendo nisto um processo de decadência, o que não é de todo incorreto.
         Neste particular a afirmação cartesiana de um purismo da subjetividade soou-lhe como retrocesso ou continuação acrítica do pensar medieval, pelo que a condenou duramente. Nietzsche viu em Descartes a desumana separação entre espírito e corpo, entre intelecto e vida, entre sujeito e mundo, reivindicando um retorno à vitalidade de uma filosofia comprometida com esta existência, a concreta. Segundo o célebre teocida, ao contrário de uma alma matemática, puramente abstrata e em oposição ao corpo, era preciso resgatar o ideal heroico grego de uma alma dotada de paixões, de pulsões vitais, de amor pelo corpo e pelo mundo. O espírito para Nietzsche é o regulador da saúde humana, a sensibilidade absolutamente encarnada que frui ao máximo a dor e a alegria, a beleza e a tragédia da existência. Por isso mata ele o Deus arquiteto, o puro intelecto, em prol de um retorno dos deuses gregos da música e da dança, do sorriso e da lágrima, deuses, enfim, que afirmem a vida humana, ao invés de a negar.
         A belíssima contribuição de Nietzsche à reavaliação dos erros do cristianismo convive, entretanto, com um erro capital, a saber, o de malbaratar a compreensão correta da subjetividade cartesiana e, por consequência, de toda a metafísica moderna. Enquanto Nietzsche e seus parceiros, os sociólogos e psicólogos, viam na metafísica da subjetividade um mero rearranjo das concepções escolásticas e platônicas, a crítica mais moderna resgata já em Platão e especialmente na metafísica moderna o sentido preciso da subjetividade, não como elemento isolado, mas região distanciada ou profunda da vida mental.
         O que incomodava aos críticos do século XIX e XX era naturalmente a concepção de imortalidade da alma e a sua oposição ao corpo, bem como a consequência ética de que a vida não se justificava na existência atual, mas somente em referência a uma outra. Ora, os sociólogos queriam esgotar o drama da existência na realidade socioeconômica atual, o mesmo valendo para a psicologia em seu campo de ação. O que a nova visão da metafísica demonstra, no entanto, é que este medo materialista não tem razão de ser diante da visão mais completa e acabada da subjetividade, visão esta que estava implícita em toda a tradição metafísica.
         A crença na imortalidade da alma, ou sua defesa racional, não é mais do que um momento secundário da percepção compartilhada pelo materialismo de que há uma esfera subjetiva irredutível aos processos explicativos da realidade material. O que mesmo o naturalismo mais duro dos dias de hoje admite, uma “certa dificuldade” de reduzir o subjetivo ao fisiológico, é a atestação empírica de que há uma duplicidade ontológica radical, talvez intransponível. É com base nesta percepção universal que metafísicos desde Pitágoras afirmaram a possibilidade, quando não a certeza da, imortalidade, já que a constituição da subjetividade é, aos olhos de todos, distinta da constituição transitória e puramente formal da matéria. Uma vez que o sujeito não está sujeito à causalidade mecânica, identificando intuitivamente em si o livre-arbítrio, não tem o seu ser determinado pela sua forma, sentindo-se essencialmente como sensível, intencional e referencial, conclui-se tão somente quanto a sua não sujeição às regras do corpo, como o ser perecível.
         Mas enquanto esta conclusão tem força de prova para o racionalismo, de diversos tipos, é bem verdade que isto não basta para concluir favoravelmente a sua existência de fato. Nisto religiosos e materialistas estão errados. Há um argumento racional e imbatível em favor da existência da alma, e isto têm de reconhecer os materialistas, mas este argumento pode ser puramente válido no âmbito especulativo, sem que se constate sua vigência na realidade, e isto têm de reconhecer os religiosos.   
       A solução ortodoxa da religião foi pressupor, pela fé, um bom Deus que garante o acerto de nossos juízos. A solução espírita foi buscar uma base empírica para esta alegação puramente especulativa de imortalidade. Em ambos os casos o materialista pode reagir: negando-se a depositar fé no bom Deus, ou questionando a força das evidências empíricas apresentadas pelo Espiritismo.
         O que o materialista não pode fazer, contudo, é confundir o recurso do religioso ao argumento de fé ou a uma convicção empírica na veracidade do argumento da imortalidade, com uma crença ingênua e/ou psicológica na sua imortalidade pessoal. Foi precisamente o que Nietzsche fez em relação a Descartes. Tal como Marx, Freud e outros pensadores antropológicos, reduziu o argumento filosófico à condição de crítica externa, depositando não apenas a razão do dualismo cartesiano em motivos culturais e psicológicos, como ignorando a fonte empírica, inteiramente não cultural e não psicológica da dupla constituição do ser.

(continua em Metafísica da Subjetividade)

19 comentários:

  1. Seu texto é ruim. E você deveria se sentir mal.

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    1. O texto não é ruim, O seu intelecto é que está aquém da compreensão do texto.

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  2. Caro anônimo, é uma pena que muito provavelmente você não responda, mas não posso deixar de perguntar.

    Onde você deixou algum texto seu para que possamos comparar a QUALIDADE?

    Schubert, muito bom o texto.

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  3. Amigos,
    é muito importante receber críticas e elogios. Agradeço igualmente a todos. Algumas pessoas me questionaram por não postar seus comentários, e aproveito para me explicar. O anônimo acima fez sua crítica sem qualquer tipo de ofensa pessoal. Comentários como este serão sempre aceitos. Os censurados continham xingamentos e palavrões. Agradeço pessoalmente por estas críticas mais duras, mas não quero expor os visitantes desta página a este tipo de linguagem. Abraço a todos.

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    1. Para concluir, já dizia Kant:"Só a crítica pode cortar pela raíz o materialismo, o fatalismo, o ateismo, a incredulidade dos espiritos fortes, o fanatismo e a supertição, que se podem tornar nocívos a todos e, por último, também o idealismo e ceticismo, que são sobretudo perigosos para as escolas e dificilmemte se propagam no público"

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  4. Xingamentos e palavrões só porque você fez uma leitura crítica de Nietzsche? Imagine o que virá quando você discutir Michel Foucault...

    Otto

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  5. Ótimo texto, porém, na minha humilde opinião não foi bem compreendida a visão de Nietzsche no que se trata do cristianismo e espiritismo. O texto acima pode ser subjetivo, assim compreendo. Por fim, parabéns pelo blog e pelo assunto tratado!

    satierF

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  6. É bom explicitar que o que o anônimo falou é um meme, e não realmente um comentário de alguém que leu realmente o texto. Eu, na minha humilde ignorância, não entendi muito do texto, alguém pode dar uma luz pra mim? Agradeço desde já

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  7. Primeiramente, não houve intenção de diminuir os méritos de Nietzsche, mas tão somente de detectar, o que cabe para qualquer outro autor, um erro no seu pensamento. A tarefa é importante porque trata-se de um autor muito influente e muito pouco criticado, combinação sempre negativa para o progresso da reflexão. Hoje esta crítica não chega a ser original, embora eu tenha tentado dar contornos originais através do viés espiritualista que empreguei aqui. Os grandes autores trabalham principalmente sobre o fato de que a crítica de Nietzsche parte de um campo específico e limitado (estética e crítica cultural) o qual, apesar de efetivo, não poderia ter todas as implicações que historicamente acabou tendo. Portanto estamos autorizados a, e é até relativamente fácil, continuar defendendo um conceito forte de subjetividade, ou seja, uma forma essencial de ser de cada indivíduo. Sem esta não há sentido em falar em espírito, o que é um desdobramento desejável para Nietzsche, mas não suficientemente provado por ele. Recomendo muito a leitura da filosofia alemã mais recente. Klaus Düsing, Dieter Henrich, Manfred Frank, Jörg Dierken, Scheliha e associados.

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  8. Muito oportuna esses questionamentos da construção do pensamento, onde Nietzsche ocupa papel de destaque. Entretanto quero externar algumas considerações.
    Uma questão relevante é que Nietzsche não afirma que matou Deus. Simplesmente, vendo o racionalismo dos modernos, a partir de Descartes, ser colocado no lugar de Deus, no movimento racionalista pós idade-média. Apenas expressou que os modernos colocaram a razão no lugar de Deus, Nietzsche apenas afirmou o que os sábios da época criaram. Também, não vejo na obra de Nietzsche essa preocupação com a alma.
    Talvez, sua contribuição mais importante foi denunciar o que chamou de Niilismo. E o que é isso exatamente?
    Essa discussão é longa e profícua. E o filólogo identifica seu surgimento com Sócrates, que inventa um mundo das ideias, da razão como o objetivo a ser alcançado. Para fazê-lo tornaria-se necessário negar a ilusão dos sentidos, pela por este outro, superior, o da razão. Para tanto, o mundo e seu estado de coisas deveria ser superado, vencido, para alcançar este mundo perfeito, o qual ele mesmo criou de suas observações. Assim surge a negação dos sentidos e da existência por um mundo que não pertence ao mundo dos sentidos e da afirmação da existência. Vemos depois a troca deste mundo da razão por Deus, no judaísmo cristão, onde para se alcançar a superação dos medos e incertezas que vivemos, entre eles a finitude. Este pensamento retorna com Descartes e os modernos, e até mesmo no marxismo. O marxismo primeiro afirma que a vida é injusta, julgando a vida, e que a sociedade sem classes seria a solução. Ora, a sociedade sem classe nunca existiu e nunca existira. Aqui, nega-se mais uma vez as forças que compõe o mundo por um mundo que não existe. O "pai" do materialismo também é niilista pois nega as forças da vida por outras que nunca existiram.
    Ele busca, como outros filósofos elementos constitutivos da Grécia clássica, não para afirmar deuses pagãos e sim para entender a Grécia pré-socrática, onde os "fortes" se expressavam através da arte, do trágico, da oratória, que inclusive tinha um Sócrates pouco potente.
    O que o o autor chama de subjetividade é fruto da construção da própria razão, alcançando o auge em Kant e suas arbitrárias regras em teorias sem fim. Vejo assim que o cerne de sua obra é a denuncia da negação deste mundo, do corpo, forças, prazeres em favor de um mundo separado da natureza deste, quer nomeie-se como razão, consciência, ou mundo perfeito. Em relação a razão e consciência forçoso se faz considerar que estes são resultantes das memórias selecionadas, posto que a razão e o consciente constituem apenas 5% da nossa percepção, os outros 95% compõe o chamado inconsciente. sua obra é muito mais vasta e significativa do que as questões estéticas e culturais.
    Esta questão de descobrir a verdade surge com Sócrates, até então aceitava-se a vida, com o trágico que a compõe, e sobretudo, em vez da discussão sobre uma verdade limitada pela razão propõe que vivamos cada dia, façamos de cada dia uma obra de arte.
    É um filósofo mal compreendido. Os humanos não são imperfeitos, nem este mundo inferior, esta é a base da negação das forças que compõe a vida.
    Não estou aqui tentando afirmar nenhuma verdade. Nietzsche também não fez, não buscou prosélitos, nem escolas de pensamento. Enfim é ótima essa oportunidade de reflexão e agradeço em poder expressar alguns pensamentos.

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  12. A "convicção empírica" na veracidade do argumento da imortalidade é uma crença ingênua e/ou psicológica justamente por não ser algo que possa ser empiricamente testado.
    Se não existe uma resposta, devo criar uma e conformar toda uma realidade dinâmica a ela? Não seria mais salutar termos "respostas" provisórias?
    Informar um argumento com uma hipótese que não possa ser testada é uma falácia de argumento irrefutável.

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  13. David,
    observe como você escolhe adjetivações exageradas. Isso já mostra que você decidiu o seu lado na questão e parece "ter as respostas" para tuas perguntas. Mas vamos a elas:
    1- Sim, se não existe resposta para problemas dos quais depende a nossa vida, temos de inventá-las. É o que a filosofia faz e o que a diferencia da ciência. As questões éticas, estéticas ou o sentido existencial da vida são definidos assim. Na falta de uma única resposta certa, trabalhamos com um leque das mais razoáveis e menos contraditórias, e conscientemente elegemos uma delas.
    2- Sim, seria salutar termos respostas provisórias. Quem está consciente de que elegeu ou criou uma resposta já sabe que ela não é a certa, o caminho exclusivo oferecido pela realidade, e que, inclusive, esse caminho pode não existir para algumas questões. Então, são por definição especulativas e provisórias.
    Por fim, falácias só ocorrem quando você tenta fazer um argumento de uma ordem parecer de outra. Se você afirma que a hipótese não pode ser testada, e a retira do campo da comprovação empírica para o da especulação filosófica pura, não é argumento irrefutável.

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  14. Marco Nicolatto resumiu bem o que Nietzsche quer dizer.

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  15. Eu ja fui igual a voce, procurava argumentos racionais pra refutar NIETZSCHE coisas assim. Schopenhauer por exemplo, utiliza argumentos puramente racionais para defender uma vida de eremita. Mas ja parou pra pensar que o ser humano está alem do racional? Nietzsche não se compreende apenas com a razão. Se as pessoas olharem pra dentro e sentirem o que devem fazer em vez de buscar lógica em tudo. Há coisas que vão muito alem da lógica. E isso é algo que estou aprendendo. O espiritismo é lógico, mas a lógica é chata, é amarga.

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